De onde vem o olhar de quem faz responsabilidade social?
Três vertentes ajudam a compreender como empresas, instituições e comunidades constroem desenvolvimento e valor social.
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Por trás de cada decisão de patrocínio, de cada edital social ou parceria comunitária, existe uma forma de compreender os mecanismos da mudança. Alguns profissionais enxergam o investimento social como um gesto de fortalecimento das capacidades e ativos já existentes nas comunidades; outros o tratam como uma ferramenta de gestão e mensuração de resultados. Há ainda quem tente equilibrar os dois olhares, o que nasce de dentro das comunidades e o que vem de fora, das instituições. Essas diferentes maneiras de compreender e praticar a responsabilidade social não são apenas estilos de trabalho. Elas revelam vertentes teóricas e éticas que moldam o modo como empresas, governos e organizações entendem o desenvolvimento.
Nos bastidores da responsabilidade social, coexistem diferentes comunidades epistêmicas, ou modos de pensar, que orientam as práticas do campo: de um lado, as abordagens endógenas, que acreditam que o desenvolvimento começa no território e nas pessoas; de outro, as exógenas, que defendem que a transformação vem com estrutura, gestão e políticas amplas. Entre elas, há um campo cada vez mais relevante, o das abordagens híbridas, que buscam unir o poder local e o olhar institucional para construir transformações mais duradouras.
Compreender essas três vertentes, a comunitária, a institucional e a crítica, amplia o horizonte analítico e as categorias em jogo para quem atua com patrocínios e investimentos sociais. Elas não apenas organizam diferentes modos de intervir, mas evidenciam racionalidades distintas sobre o que significa produzir desenvolvimento e valor social. Cada uma responde, à sua maneira, a questões estruturantes: onde o processo de mudança se origina? quem o conduz e com quais instrumentos? e o que efetivamente permanece quando o ciclo do projeto se encerra? Mais do que um exercício teórico, essa reflexão explicita o substrato epistemológico que sustenta o fazer cotidiano da responsabilidade social, e, em última instância, define o alcance e a natureza do legado que se constrói nos territórios.
As três vertentes
Três respostas para as mesmas perguntas
Quando o desenvolvimento começa pela falta

A Abordagem Baseada em Necessidades é uma das matrizes mais antigas e influentes no campo do desenvolvimento social e das práticas de investimento corporativo. Sua lógica nasce da tentativa de responder a carências materiais e institucionais percebidas em comunidades ou grupos sociais em situação de vulnerabilidade. Em essência, trata-se de um modelo diagnóstico e interventivo, cujo ponto de partida é identificar “o que falta”, sobretudo recursos, serviços, direitos e infraestrutura, para, a partir daí, mobilizar agentes externos na correção dessas ausências.
Essa racionalidade se consolida especialmente no pós-Segunda Guerra Mundial, com o avanço do Estado de bem-estar social europeu e dos programas multilaterais de reconstrução econômica, como o Marshall Plan (1948), que inspiraram o surgimento de uma tradição de políticas públicas baseadas na satisfação de necessidades básicas (basic needs approach), amplamente difundida por organismos como a ONU, o Banco Mundial e o PNUD a partir dos anos 1970.
Em sua estrutura mais clássica, a abordagem parte da identificação de déficits sociais, com base em indicadores objetivos, como pobreza, escolaridade, saneamento, moradia e acesso à cultura e ao esporte, e define como meta suprir essas lacunas por meio de programas específicos. O foco está, portanto, na provisão: fornecer o que falta para restaurar condições mínimas de bem-estar. Essa perspectiva se apoia numa ética redistributiva e em uma confiança nas capacidades institucionais de prover, planejar e mensurar resultados.
Do ponto de vista conceitual, a Abordagem Baseada em Necessidades estrutura-se sobre uma racionalidade normativa e tecnocrática. Normativa porque parte de um conjunto de parâmetros universais de dignidade e bem-estar, como os definidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) e, mais tarde, pelos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ONU, 2000). Tecnocrática porque atribui aos especialistas e instituições o papel de identificar, planejar e implementar soluções. Essa configuração epistemológica tende a posicionar as comunidades como destinatárias de políticas, e não como coautoras de estratégias.
Entretanto, é importante reconhecer que esse modelo produz efeitos legítimos e necessários, especialmente em contextos onde a infraestrutura cultural e social é frágil ou inexistente. No campo dos patrocínios e investimentos socioculturais, por exemplo, essa lógica se manifesta na seleção de projetos itinerantes, circulações artísticas, formações técnicas e iniciativas de difusão que atuam “de fora para dentro”, levando conteúdos, metodologias e referências a diferentes territórios. Essas ações cumprem um papel vital de ampliação de repertório, acesso e visibilidade, conectando comunidades a experiências que dificilmente emergiriam apenas de seus recursos internos.
Trata-se, portanto, de uma racionalidade que não se opõe às abordagens participativas, mas as complementa, especialmente em contextos de desigualdade estrutural. Se as abordagens baseadas em ativos e capacidades apostam na potência endógena, a lógica das necessidades continua essencial para abrir caminhos, criar condições de base e gerar acesso a bens simbólicos e oportunidades. Em situações de crise, emergência ou privação de direitos, como o terremoto do Haiti (2010) ou as enchentes do Rio Grande do Sul (2024), essa perspectiva permanece insubstituível, pois oferece respostas imediatas e articuladas às demandas concretas de sobrevivência e recomposição social.
Da carência à potência: o território como ponto de partida

O Desenvolvimento de Ativos e Capacidades (DAC) representa uma inflexão paradigmática na teoria e na prática do desenvolvimento comunitário. Formulada originalmente por John Kretzmann e John McKnight em Building Communities from the Inside Out (1993), essa abordagem desloca o eixo analítico das políticas sociais e dos investimentos corporativos, historicamente centrados nas carências e deficiências, para a valorização dos recursos, talentos e competências já existentes nas comunidades. O gesto teórico é radical, pois propõe uma inversão epistemológica: em vez de ver o território a partir do que falta, o DAC convida a enxergá-lo pelo que já existe, pelo que pulsa e resiste. Essa virada implica abandonar a racionalidade assistencialista que define as comunidades como receptoras de ajuda e assumir uma racionalidade emancipatória, que as reconhece como portadoras de potência e como sujeitos de sua própria história.
A origem dessa abordagem está vinculada a um contexto norte-americano de declínio industrial, o chamado Rust Belt, em que cidades e bairros operários sofriam com desemprego, desindustrialização e colapso das redes locais de solidariedade. Kretzmann e McKnight, inspirados pela sociologia comunitária de Jane Jacobs (The Death and Life of Great American Cities, 1961) e pelas pedagogias participativas de Paulo Freire (Pedagogia do Oprimido, 1968), observaram que muitas políticas de revitalização urbana fracassavam justamente por partirem de diagnósticos externos e por retratarem as comunidades como conjuntos de deficiências. Em resposta, propuseram um método baseado na descoberta e mobilização dos “ativos” (assets), elementos materiais, humanos e simbólicos que compõem o tecido vivo da comunidade: seus saberes, lideranças, espaços, vínculos e formas de cooperação.
No campo da responsabilidade social corporativa, o DAC reconfigura a relação entre empresa e comunidade. A responsabilidade social deixa de ser “o que a empresa faz para a comunidade” e passa a ser “o que a empresa constrói com a comunidade”. Essa distinção redefine o papel do investidor social: de provedor a facilitador de processos, de executor a articulador de redes. Ao adotar uma lógica baseada em ativos, as empresas constroem legados mais consistentes, pois as capacidades desenvolvidas permanecem no território após o encerramento do investimento. Esse enfoque se alinha à noção contemporânea de valor compartilhado proposta por Michael Porter e Mark Kramer (Creating Shared Value, 2011), mas adiciona a ela uma dimensão territorial e relacional, enfatizando o protagonismo local e a coautoria das transformações.
No entanto, como toda abordagem, o DAC possui seus limites. Em contextos de vulnerabilidade extrema, os ativos locais podem ser insuficientes para enfrentar desigualdades estruturais. Além disso, o foco no potencial interno pode, se mal aplicado, obscurecer as relações de poder e as causas sistêmicas da exclusão, como alerta Boaventura de Sousa Santos (Epistemologies of the South, 2014), quando defende que o local só se emancipa plenamente ao se articular criticamente com o global. Em situações emergenciais, como desastres naturais, crises humanitárias ou colapsos ambientais, a lógica baseada em necessidades ainda é a mais adequada. Assim, o DAC não deve ser entendido como substituto das abordagens tradicionais, mas como uma camada evolutiva: ele opera melhor quando se integra a modelos híbridos que articulam provisão, capacidade e governança.
No campo do investimento social, essa lógica se manifesta na priorização de projetos e proponentes que já atuam no território, enraizados em suas dinâmicas culturais, esportivas e simbólicas. Em vez de buscar criar novas estruturas, o foco recai sobre coletivos, produtoras, grupos artísticos e iniciativas comunitárias que já acumulam experiências e vínculos de pertencimento.
Essa escolha não é apenas operacional, mas epistemológica: reconhecer o que já existe é um gesto de validação do conhecimento, da criatividade e da capacidade produtiva das próprias comunidades. Gary Paul Green e Anna Haines (Asset Building and Community Development, 2016) sublinham que o fortalecimento de ativos locais é cumulativo, o desenvolvimento se aprofunda quando se investe em trajetórias já consolidadas, capazes de sustentar processos de longo prazo.
Nesses contextos, o investimento não inaugura uma intervenção, mas reconhece e potencializa uma potência existente, funcionando como amplificador de capacidades, tradutor de linguagens locais e catalisador de autonomia criativa. O Desenvolvimento de Ativos e Capacidades, portanto, não é apenas uma metodologia: é uma maneira de compreender o desenvolvimento como processo de expansão de possibilidades, ancorado em vínculos e potências locais. Em um mundo corporativo cada vez mais orientado por métricas e relatórios, ele resgata o sentido humano e territorial da responsabilidade social, um compromisso que se mede menos pelo volume de recursos investidos e mais pela densidade das relações e das capacidades que permanecem. Ao recolocar a comunidade no centro e o território como campo de aprendizagem, o DAC transforma o investimento social em uma prática de legado: aquilo que continua vivo quando o projeto termina.
A vertente híbrida: o desenvolvimento como diálogo

A vertente crítica ou híbrida do desenvolvimento de ativos e capacidades nasce da constatação de que nenhuma comunidade é inteiramente autônoma e de que o desenvolvimento sustentável exige articulação entre forças locais e estruturas mais amplas, políticas, institucionais e econômicas. Surge, portanto, como um esforço teórico e prático de reconciliação entre as abordagens endógenas e exógenas: uma tentativa de unir o protagonismo comunitário à capacidade de planejamento e escala dos sistemas institucionais. Em vez de opor o “de dentro” ao “de fora”, o olhar híbrido os considera co-dependentes na produção de transformações duradouras.
Essa perspectiva amadurece a partir dos anos 2000, em diálogo com a teoria das capacidades de Amartya Sen (Development as Freedom, 1999) e com a economia institucional de Elinor Ostrom (Governing the Commons, 1990), que demonstra como comunidades podem gerir recursos coletivos de forma eficaz quando apoiadas por redes e políticas que reconhecem sua autonomia. A vertente híbrida compreende que o poder local, embora indispensável, opera em um ecossistema de condicionantes estruturais: o território é uma instância viva, mas não isolada. Ele se conecta a fluxos de capital, regulação, cultura e conhecimento que moldam suas possibilidades. Nesse sentido, o desenvolvimento é simultaneamente endógeno e relacional, local e global.
No campo da responsabilidade social corporativa, essa vertente expressa o movimento de transição da filantropia e do assistencialismo para o investimento social estratégico, aquele que busca produzir impacto mensurável sem perder densidade relacional. É o que se observa em programas que integram Teoria da Mudança, indicadores de impacto e participação comunitária no mesmo desenho, evitando tanto o tecnocratismo da mensuração isolada quanto a dispersão das ações pontuais. Exemplos como o Programa de Desenvolvimento Local Sustentável do Instituto Votorantim e as iniciativas da Gerando Falcões ilustram essa convergência: todos combinam análise territorial, fortalecimento de cadeias produtivas locais e construção de governanças comunitárias, conectando o micro ao macro, o humano ao institucional. Esse tipo de racionalidade híbrida é também característica de portfólios geridos por fundações empresariais, que tendem a articular projetos de base comunitária com instrumentos de gestão corporativa e avaliação de impacto. Nesse modelo, o investimento social se torna uma plataforma de mediação entre o território e a instituição, onde o protagonismo local e o planejamento estratégico coexistem como partes de um mesmo processo de transformação.
Do ponto de vista teórico, o que distingue a vertente crítica não é apenas a tentativa de síntese entre os polos endógeno e exógeno, mas a compreensão sistêmica da mudança social. Ela entende que o empoderamento local precisa ser sustentado por ações contínua, e que a eficácia institucional depende da vitalidade das redes comunitárias. Essa é a base da noção de multi-escalaridade, conceito central para autores como Norman Long (Development Sociology, 2001) e Anthony Bebbington (Capitals and Capabilities, 1999), que descreve o desenvolvimento como processo simultâneo em diferentes escalas de ação: a doméstica, a comunitária, a institucional e a global.
Multi-escalaridade
O desenvolvimento acontece em quatro escalas ao mesmo tempo
- 01Doméstica
- 02Comunitária
- 03Institucional
- 04
A vertente híbrida também oferece uma contribuição epistemológica importante para o campo da responsabilidade social: ela propõe uma ética da co-produção, na qual a empresa, o Estado e a comunidade atuam como coautores de processos de mudança, cada qual com papéis distintos, mas interdependentes. Essa ética reconhece que o conhecimento se constrói na interação, entre técnicos e moradores, entre gestores e artistas, entre indicadores e narrativas, e que o valor social se produz tanto nos resultados tangíveis quanto nos vínculos e aprendizados intangíveis que emergem no processo.
O limite da vertente híbrida talvez seja o mesmo que constitui sua força: a complexidade. Ao propor a integração de racionalidades distintas, técnica e simbólica, global e local, pública e privada, essa abordagem exige um nível elevado de maturidade institucional, coordenação intersetorial e escuta contínua entre os atores envolvidos. Essa complexidade não é apenas operacional, mas epistemológica: ela decorre do encontro entre lógicas de ação que nem sempre compartilham os mesmos tempos, linguagens e expectativas. O tempo da comunidade, regido por vínculos, confiança e reciprocidade, raramente coincide com o tempo corporativo, guiado por métricas, prazos e entregas. Essa diferença, se não mediada com sensibilidade, pode gerar assimetrias na parceria e até reproduzir hierarquias que a própria abordagem procura superar.
Dois tempos
O tempo da comunidade e o tempo corporativo raramente coincidem
- Corporativo: métricas, prazos e entregas
- Comunidade: vínculos, confiança e reciprocidade
Outro desafio relevante é o da sustentabilidade relacional. Projetos híbridos exigem permanência, continuidade e investimento em processos de mediação cultural, o que contrasta com a lógica de curto prazo predominante em muitos programas corporativos e editais. A inovação social de longo prazo nasce da repetição e da escuta, dois gestos que nem sempre cabem nos ciclos orçamentários anuais.
Apesar desses limites, é precisamente nessa complexidade que reside sua potência contemporânea. A vertente híbrida, ao reconhecer o conflito e a diferença como partes constitutivas da mudança social, oferece uma estrutura de aprendizado coletivo, capaz de transformar tensões em inovação e divergências em coautoria. Em um cenário em que a legitimidade da responsabilidade social depende tanto da coerência ética dos processos quanto dos resultados mensuráveis, essa abordagem inaugura um novo tipo de valor: aquele que se sustenta não pela harmonia, mas pela capacidade de permanecer em diálogo.

