De onde vem o olhar de quem faz responsabilidade social?
03 de setembro de 2026

Por trás de cada decisão de patrocínio, de cada edital social ou parceria comunitária, existe uma forma de compreender os mecanismos da mudança. Alguns profissionais enxergam o investimento social como um gesto de fortalecimento das capacidades e ativos já existentes nas comunidades; outros o tratam como uma ferramenta de gestão e mensuração de resultados. Há ainda quem tente equilibrar os dois olhares, o que nasce de dentro das comunidades e o que vem de fora, das instituições. Essas diferentes maneiras de compreender e praticar a responsabilidade social não são apenas estilos de trabalho. Elas revelam vertentes teóricas e éticas que moldam o modo como empresas, governos e organizações entendem o desenvolvimento.
Nos bastidores da responsabilidade social, coexistem diferentes comunidades epistêmicas, ou modos de pensar, que orientam as práticas do campo: de um lado, as abordagens endógenas, que acreditam que o desenvolvimento começa no território e nas pessoas; de outro, as exógenas, que defendem que a transformação vem com estrutura, gestão e políticas amplas. Entre elas, há um campo cada vez mais relevante, o das abordagens híbridas, que buscam unir o poder local e o olhar institucional para construir transformações mais duradouras.
Compreender essas três vertentes, a comunitária, a institucional e a crítica, amplia o horizonte analítico e as categorias em jogo para quem atua com patrocínios e investimentos sociais. Elas não apenas organizam diferentes modos de intervir, mas evidenciam racionalidades distintas sobre o que significa produzir desenvolvimento e valor social. Cada uma responde, à sua maneira, a questões estruturantes: onde o processo de mudança se origina? quem o conduz e com quais instrumentos? e o que efetivamente permanece quando o ciclo do projeto se encerra? Mais do que um exercício teórico, essa reflexão explicita o substrato epistemológico que sustenta o fazer cotidiano da responsabilidade social, e, em última instância, define o alcance e a natureza do legado que se constrói nos territórios.
Quando o desenvolvimento começa pela falta
A Abordagem Baseada em Necessidades é uma das matrizes mais antigas e influentes no campo do desenvolvimento social e das práticas de investimento corporativo. Sua lógica nasce da tentativa de responder a carências materiais e institucionais percebidas em comunidades ou grupos sociais em situação de vulnerabilidade. Em essência, trata-se de um modelo diagnóstico e interventivo, cujo ponto de partida é identificar “o que falta”, sobretudo recursos, serviços, direitos e infraestrutura, para, a partir daí, mobilizar agentes externos na correção dessas ausências.
Essa racionalidade se consolida especialmente no pós-Segunda Guerra Mundial, com o avanço do Estado de bem-estar social europeu e dos programas multilaterais de reconstrução econômica, como o Marshall Plan (1948), que inspiraram o surgimento de uma tradição de políticas públicas baseadas na satisfação de necessidades básicas (basic needs approach), amplamente difundida por organismos como a ONU, o Banco Mundial e o PNUD a partir dos anos 1970.
Em sua estrutura mais clássica, a abordagem parte da identificação de déficits sociais, com base em indicadores objetivos, como pobreza, escolaridade, saneamento, moradia e acesso à cultura e ao esporte, e define como meta suprir essas lacunas por meio de programas específicos. O foco está, portanto, na provisão: fornecer o que falta para restaurar condições mínimas de bem-estar. Essa perspectiva se apoia numa ética redistributiva e em uma confiança nas capacidades institucionais de prover, planejar e mensurar resultados.
Do ponto de vista conceitual, a Abordagem Baseada em Necessidades estrutura-se sobre uma racionalidade normativa e tecnocrática. Normativa porque parte de um conjunto de parâmetros universais de dignidade e bem-estar, como os definidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) e, mais tarde, pelos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ONU, 2000). Tecnocrática porque atribui aos especialistas e instituições o papel de identificar, planejar e implementar soluções. Essa configuração epistemológica tende a posicionar as comunidades como destinatárias de políticas, e não como coautoras de estratégias.
Entretanto, é importante reconhecer que esse modelo produz efeitos legítimos e necessários, especialmente em contextos onde a infraestrutura cultural e social é frágil ou inexistente. No campo dos patrocínios e investimentos socioculturais, por exemplo, essa lógica se manifesta na seleção de projetos itinerantes, circulações artísticas, formações técnicas e iniciativas de difusão que atuam “de fora para dentro”, levando conteúdos, metodologias e referências a diferentes territórios. Essas ações cumprem um papel vital de ampliação de repertório, acesso e visibilidade, conectando comunidades a experiências que dificilmente emergiriam apenas de seus recursos internos.
Trata-se, portanto, de uma racionalidade que não se opõe às abordagens participativas, mas as complementa, especialmente em contextos de desigualdade estrutural. Se as abordagens baseadas em ativos e capacidades apostam na potência endógena, a lógica das necessidades continua essencial para abrir caminhos, criar condições de base e gerar acesso a bens simbólicos e oportunidades. Em situações de crise, emergência ou privação de direitos, como o terremoto do Haiti (2010) ou as enchentes do Rio Grande do Sul (2024), essa perspectiva permanece insubstituível, pois oferece respostas imediatas e articuladas às demandas concretas de sobrevivência e recomposição social.
Da carência à potência: o território como ponto de partida
O Desenvolvimento de Ativos e Capacidades (DAC) representa uma inflexão paradigmática na teoria e na prática do desenvolvimento comunitário. Formulada originalmente por John Kretzmann e John McKnight em Building Communities from the Inside Out (1993), essa abordagem desloca o eixo analítico das políticas sociais e dos investimentos corporativos, historicamente centrados nas carências e deficiências, para a valorização dos recursos, talentos e competências já existentes nas comunidades. O gesto teórico é radical, pois propõe uma inversão epistemológica: em vez de ver o território a partir do que falta, o DAC convida a enxergá-lo pelo que já existe, pelo que pulsa e resiste. Essa virada implica abandonar a racionalidade assistencialista que define as comunidades como receptoras de ajuda e assumir uma racionalidade emancipatória, que as reconhece como portadoras de potência e como sujeitos de sua própria história.
A origem dessa abordagem está vinculada a um contexto norte-americano de declínio industrial, o chamado Rust Belt, em que cidades e bairros operários sofriam com desemprego, desindustrialização e colapso das redes locais de solidariedade. Kretzmann e McKnight, inspirados pela sociologia comunitária de Jane Jacobs (The Death and Life of Great American Cities, 1961) e pelas pedagogias participativas de Paulo Freire (Pedagogia do Oprimido, 1968), observaram que muitas políticas de revitalização urbana fracassavam justamente por partirem de diagnósticos externos e por retratarem as comunidades como conjuntos de deficiências. Em resposta, propuseram um método baseado na descoberta e mobilização dos “ativos” (assets), elementos materiais, humanos e simbólicos que compõem o tecido vivo da comunidade: seus saberes, lideranças, espaços, vínculos e formas de cooperação.
No campo da responsabilidade social corporativa, o DAC reconfigura a relação entre empresa e comunidade. A responsabilidade social deixa de ser “o que a empresa faz para a comunidade” e passa a ser “o que a empresa constrói com a comunidade”. Essa distinção redefine o papel do investidor social: de provedor a facilitador de processos, de executor a articulador de redes. Ao adotar uma lógica baseada em ativos, as empresas constroem legados mais consistentes, pois as capacidades desenvolvidas permanecem no território após o encerramento do investimento. Esse enfoque se alinha à noção contemporânea de valor compartilhado proposta por Michael Porter e Mark Kramer (Creating Shared Value, 2011), mas adiciona a ela uma dimensão territorial e relacional, enfatizando o protagonismo local e a coautoria das transformações.
No entanto, como toda abordagem, o DAC possui seus limites. Em contextos de vulnerabilidade extrema, os ativos locais podem ser insuficientes para enfrentar desigualdades estruturais. Além disso, o foco no potencial interno pode, se mal aplicado, obscurecer as relações de poder e as causas sistêmicas da exclusão, como alerta Boaventura de Sousa Santos (Epistemologies of the South, 2014), quando defende que o local só se emancipa plenamente ao se articular criticamente com o global. Em situações emergenciais, como desastres naturais, crises humanitárias ou colapsos ambientais, a lógica baseada em necessidades ainda é a mais adequada. Assim, o DAC não deve ser entendido como substituto das abordagens tradicionais, mas como uma camada evolutiva: ele opera melhor quando se integra a modelos híbridos que articulam provisão, capacidade e governança.
No campo do investimento social, essa lógica se manifesta na priorização de projetos e proponentes que já atuam no território, enraizados em suas dinâmicas culturais, esportivas e simbólicas. Em vez de buscar criar novas estruturas, o foco recai sobre coletivos, produtoras, grupos artísticos e iniciativas comunitárias que já acumulam experiências e vínculos de pertencimento.
Essa escolha não é apenas operacional, mas epistemológica: reconhecer o que já existe é um gesto de validação do conhecimento, da criatividade e da capacidade produtiva das próprias comunidades. Gary Paul Green e Anna Haines (Asset Building and Community Development, 2016) sublinham que o fortalecimento de ativos locais é cumulativo, o desenvolvimento se aprofunda quando se investe em trajetórias já consolidadas, capazes de sustentar processos de longo prazo.
Nesses contextos, o investimento não inaugura uma intervenção, mas reconhece e potencializa uma potência existente, funcionando como amplificador de capacidades, tradutor de linguagens locais e catalisador de autonomia criativa. O Desenvolvimento de Ativos e Capacidades, portanto, não é apenas uma metodologia: é uma maneira de compreender o desenvolvimento como processo de expansão de possibilidades, ancorado em vínculos e potências locais. Em um mundo corporativo cada vez mais orientado por métricas e relatórios, ele resgata o sentido humano e territorial da responsabilidade social, um compromisso que se mede menos pelo volume de recursos investidos e mais pela densidade das relações e das capacidades que permanecem. Ao recolocar a comunidade no centro e o território como campo de aprendizagem, o DAC transforma o investimento social em uma prática de legado: aquilo que continua vivo quando o projeto termina.
A vertente híbrida: o desenvolvimento como diálogo
A vertente crítica ou híbrida do desenvolvimento de ativos e capacidades nasce da constatação de que nenhuma comunidade é inteiramente autônoma e de que o desenvolvimento sustentável exige articulação entre forças locais e estruturas mais amplas, políticas, institucionais e econômicas. Surge, portanto, como um esforço teórico e prático de reconciliação entre as abordagens endógenas e exógenas: uma tentativa de unir o protagonismo comunitário à capacidade de planejamento e escala dos sistemas institucionais. Em vez de opor o “de dentro” ao “de fora”, o olhar híbrido os considera co-dependentes na produção de transformações duradouras.
Essa perspectiva amadurece a partir dos anos 2000, em diálogo com a teoria das capacidades de Amartya Sen (Development as Freedom, 1999) e com a economia institucional de Elinor Ostrom (Governing the Commons, 1990), que demonstra como comunidades podem gerir recursos coletivos de forma eficaz quando apoiadas por redes e políticas que reconhecem sua autonomia. A vertente híbrida compreende que o poder local, embora indispensável, opera em um ecossistema de condicionantes estruturais: o território é uma instância viva, mas não isolada. Ele se conecta a fluxos de capital, regulação, cultura e conhecimento que moldam suas possibilidades. Nesse sentido, o desenvolvimento é simultaneamente endógeno e relacional, local e global.
No campo da responsabilidade social corporativa, essa vertente expressa o movimento de transição da filantropia e do assistencialismo para o investimento social estratégico, aquele que busca produzir impacto mensurável sem perder densidade relacional. É o que se observa em programas que integram Teoria da Mudança, indicadores de impacto e participação comunitária no mesmo desenho, evitando tanto o tecnocratismo da mensuração isolada quanto a dispersão das ações pontuais. Exemplos como o Programa de Desenvolvimento Local Sustentável do Instituto Votorantim e as iniciativas da Gerando Falcões ilustram essa convergência: todos combinam análise territorial, fortalecimento de cadeias produtivas locais e construção de governanças comunitárias, conectando o micro ao macro, o humano ao institucional. Esse tipo de racionalidade híbrida é também característica de portfólios geridos por fundações empresariais, que tendem a articular projetos de base comunitária com instrumentos de gestão corporativa e avaliação de impacto. Nesse modelo, o investimento social se torna uma plataforma de mediação entre o território e a instituição, onde o protagonismo local e o planejamento estratégico coexistem como partes de um mesmo processo de transformação.
Do ponto de vista teórico, o que distingue a vertente crítica não é apenas a tentativa de síntese entre os polos endógeno e exógeno, mas a compreensão sistêmica da mudança social. Ela entende que o empoderamento local precisa ser sustentado por ações contínua, e que a eficácia institucional depende da vitalidade das redes comunitárias. Essa é a base da noção de multi-escalaridade, conceito central para autores como Norman Long (Development Sociology, 2001) e Anthony Bebbington (Capitals and Capabilities, 1999), que descreve o desenvolvimento como processo simultâneo em diferentes escalas de ação: a doméstica, a comunitária, a institucional e a global.
A vertente híbrida também oferece uma contribuição epistemológica importante para o campo da responsabilidade social: ela propõe uma ética da co-produção, na qual a empresa, o Estado e a comunidade atuam como coautores de processos de mudança, cada qual com papéis distintos, mas interdependentes. Essa ética reconhece que o conhecimento se constrói na interação, entre técnicos e moradores, entre gestores e artistas, entre indicadores e narrativas, e que o valor social se produz tanto nos resultados tangíveis quanto nos vínculos e aprendizados intangíveis que emergem no processo.
O limite da vertente híbrida talvez seja o mesmo que constitui sua força: a complexidade. Ao propor a integração de racionalidades distintas, técnica e simbólica, global e local, pública e privada, essa abordagem exige um nível elevado de maturidade institucional, coordenação intersetorial e escuta contínua entre os atores envolvidos. Essa complexidade não é apenas operacional, mas epistemológica: ela decorre do encontro entre lógicas de ação que nem sempre compartilham os mesmos tempos, linguagens e expectativas. O tempo da comunidade, regido por vínculos, confiança e reciprocidade, raramente coincide com o tempo corporativo, guiado por métricas, prazos e entregas. Essa diferença, se não mediada com sensibilidade, pode gerar assimetrias na parceria e até reproduzir hierarquias que a própria abordagem procura superar.
Outro desafio relevante é o da sustentabilidade relacional. Projetos híbridos exigem permanência, continuidade e investimento em processos de mediação cultural, o que contrasta com a lógica de curto prazo predominante em muitos programas corporativos e editais. A inovação social de longo prazo nasce da repetição e da escuta, dois gestos que nem sempre cabem nos ciclos orçamentários anuais.
Apesar desses limites, é precisamente nessa complexidade que reside sua potência contemporânea. A vertente híbrida, ao reconhecer o conflito e a diferença como partes constitutivas da mudança social, oferece uma estrutura de aprendizado coletivo, capaz de transformar tensões em inovação e divergências em coautoria. Em um cenário em que a legitimidade da responsabilidade social depende tanto da coerência ética dos processos quanto dos resultados mensuráveis, essa abordagem inaugura um novo tipo de valor: aquele que se sustenta não pela harmonia, mas pela capacidade de permanecer em diálogo.